Conhecido como um momento de lazer popular para diferentes tipos de pessoas — de famílias inteiras a casais de namorados e estudantes de arte —, o cinema vem enfrentando dificuldades no Brasil. Em setembro de 2019, o presidente apresentou um projeto de lei que previa o corte de 43% das verbas do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). A medida fará a Agência Nacional de Cinema (Ancine) dispor de R$ 415,3 milhões em 2020, o menor valor dos últimos nove anos.
Cortes e problemáticas
Denúncias envolvendo o diretor-presidente da instituição até agosto do ano passado, acusado de participar de ilegalidades, e o término do mandato de outros funcionários em diretorias colegiadas fizeram a Ancine ficar nas mãos de uma única pessoa.
Esse contexto de corte de orçamentos e saída de funcionários de alta hierarquia fez diretores e produtores audiovisuais buscarem alternativas de financiamento para seus filmes.
Em abril de 2019, o Tribunal de Contas da União (TCU) alegou que o atual modelo de prestação de contas do FSA apresentava problemas, o que fez a Ancine suspender todos os recursos públicos até então destinados a fomentar o setor, medida que paralisou inúmeras produções. O TCU condicionou o fornecimento de novas verbas à entrega de prestação de contas em outro modelo considerado adequado pelo órgão.
Alternativas de financiamento
Dentre as vias alternativas de financiamento, pode-se destacar o barateamento de equipamentos desde o início dos anos 2000, aliado à revolução digital que vem substituindo os parques analógicos.
Tais fatores ajudam a explicar a recente democratização da produção audiovisual nacional. Mesmo com as crises no setor, o público brasileiro dentro das salas de cinema aumentou 7,6% em 2019.
A valorização das produções
Mesmo em um ambiente interno hostil, a busca por outras fontes deu resultados. No ano passado, o cinema brasileiro ganhou reconhecimento em festivais internacionais, como ocorreu com Bacurau no Festival de Cannes e Divino Amor, no Festival de Berlim.
Dos filmes nacionais premiados no exterior, todos foram produzidos no Nordeste do país ou foram feitos por nordestinos, o que representou uma quebra do monopólio do Sudeste no setor. Pernambuco, Ceará e Paraíba são os estados nordestinos que apresentam maior destaque na produção cinematográfica brasileira hoje.
O fato de ter sido o primeiro estado a ter uma lei do audiovisual garantiu a Pernambuco desenvolver uma política no setor que não sofresse com as trocas de gestão no governo estadual.
Já no Ceará, há o programa Ceará Filmes, responsável por oferecer editais em áreas estratégicas como produção, distribuição e formação, além de a Casa Amarela, instituição vinculada à Universidade Federal do Ceará que oferece cursos de formação em fotografia, animação e cinema.
O financiamento da indústria cinematográfica em outros países
O modelo de financiamento do cinema varia de um país para outro. A Argentina, com o cinema latino-americano mais conhecido no mundo, possui um método semelhante ao do Brasil: uma agência reguladora — o Instituto Nacional de Cinema e Artes Audiovisuais — responsável por distribuir o dinheiro entre projetos argentinos.
Cerca de 18% do orçamento total do Fundo de Fomento Cinematográfico argentino é fornecido pelo Tesouro Nacional, sendo a maior fatia do dinheiro desse fundo vindo da própria bilheteria, além da venda de DVDs e impostos sobre canais de TV e serviços a cabo. Um modelo semelhante a esse também é realizado na França.
Já nos Estados Unidos, a maior indústria audiovisual do planeta, não existem políticas públicas para financiar filmes. O que ocorre na terra de Hollywood é a oferta por estados e municípios, de infraestrutura, locações e subsídios a fim de atrair produções cinematográficas para as suas regiões. Esse modelo se baseia em estudos que apontam o retorno econômico de cidades receptoras de produções audiovisuais.
Assim, se a previsão era de tempos de crise e dúvidas sobre a sobrevivência do cinema brasileiro, produtores vêm encontrando caminhos de continuarem fazendo do audiovisual uma realidade cada vez mais disseminada no país.
Além disso, essas novas obras vêm oxigenando a produção cinematográfica nacional ao abrir espaço para narrativas até então incomuns, levando assim o nome do Brasil — e especialmente do Nordeste — para as telas e os júris mais prestigiados do mundo.
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