De acordo com um relatório realizado pelo Santander e dados recentes divulgados pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), o setor de construção civil enfrenta um 2025 desafiador. As elevadas taxas de juros, a retração expressiva no crédito e o aumento dos custos formam um cenário restritivo tanto para construtores quanto para consumidores.
O balanço da Cbic, divulgado em julho de 2025, mostrou que o financiamento imobiliário para a produção caiu 63% nos primeiros cinco meses do ano em comparação com o mesmo período de 2024. O número de unidades habitacionais financiadas pelo Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) despencou de 65,1 mil para 24,1 mil, e o valor total financiado encolheu 54,1%, caindo de R$15,5 bilhões para R$7,1 bilhões.
Apesar das adversidades, empresas como Direcional, Cury e Cyrela seguem entre os destaques do setor, com potencial de atrair investidores e manter desempenho acima da média do mercado.
Impacto dos juros e restrição de crédito
A taxa Selic se mantém em 15% ao ano — o maior patamar em duas décadas — o que encarece fortemente o crédito para consumidores e empresas. Ao mesmo tempo, a debandada da poupança, que perdeu R$38,4 bilhões apenas no primeiro semestre, reduziu a capacidade dos bancos de financiar novos projetos.
O cenário atual afeta principalmente os lançamentos, com impacto maior sobre os segmentos de médio e alto padrão, mais dependentes de financiamento bancário. Mesmo com margens reduzidas, o programa Minha Casa, Minha Vida continua sendo um pilar de sustentação para o segmento de baixa renda.
A economista-chefe da Cbic, Ieda Vasconcelos, afirma que o custo do crédito está elevado para todos os agentes do setor, e os bancos têm priorizado o financiamento à aquisição em detrimento da produção. Além disso, o custo da construção segue em alta, com aumento acumulado superior a 54% desde 2020, enquanto a inflação geral no mesmo período foi de 37,5%.
Por outro lado, o setor ainda apresenta resiliência, sustentado por obras iniciadas em 2023 e 2024. A Cbic mantém uma projeção de crescimento de 2,3% para a construção civil neste ano, apoiada pelo bom desempenho no primeiro semestre e pela manutenção da atividade em patamar elevado.
Cyrela, Direcional e Cury entre os destaques
O relatório do Santander segue apontando Cyrela, Direcional e Cury como nomes de destaque. A Cyrela, com atuação consolidada, mantém crescimento sólido. Já Cury e Direcional, voltadas para o segmento de baixa renda, continuam sendo vistas como apostas seguras, especialmente em um cenário de maior seletividade dos investidores.
Entre as empresas voltadas ao segmento econômico, a Plano & Plano (PLPL3) continua como a preferida do banco, com bom rendimento de dividendos e balanço financeiro consistente. MRV e Tenda seguem em processo de recuperação, embora ainda enfrentem riscos ligados ao endividamento e dificuldades operacionais.
O Santander rebaixou suas recomendações para Even (EVEN3) e JHSF (JHSF3) de compra para neutro, devido ao potencial de valorização mais limitado e aos balanços alavancados. A Moura Dubeux permanece com recomendação de compra, favorecida por sua atuação no mercado nordestino e avaliação atrativa.
Relevância na geração de empregos
Apesar da desaceleração no crédito, a construção civil mantém papel relevante na geração de empregos. Entre janeiro e maio de 2025, o setor criou 149,2 mil vagas com carteira assinada, das quais quase metade foi preenchida por jovens entre 18 e 29 anos. O salário médio de admissão, de R$2.436, é o mais alto entre todos os setores da economia.
Contudo, o Índice de Confiança do Empresário da Construção caiu para 47,1 pontos em julho — o menor nível do ano. A inflação de 5,35% em 12 meses, as incertezas fiscais e o temor de tarifas adicionais sobre produtos brasileiros, especialmente com a política protecionista do governo dos EUA, aumentam a cautela do setor.
A Cbic alerta que, caso o atual ambiente persista, há risco de desaceleração mais acentuada a partir de 2026.
Especialista consultada
Camila Aichinger é mestre em Economia pela FGV e possui mais de duas décadas de experiência no mercado financeiro, ocupando posições estratégicas de liderança. Atuou como CEO e COO da Caixa Seguridade, onde comandou a reestruturação da empresa, processos de fusões e aquisições (M&A) e a abertura de capital (IPO) de R$ 5 bilhões.
Na Caixa Econômica Federal, desempenhou papéis de destaque nas áreas de Varejo, Corporativo, Alta Renda e Marketing, sendo responsável pela gestão de patrocínios e sistemas de precificação. Além disso, integrou conselhos de administração de diversas empresas do setor de seguros e da CNSeg. Atualmente, é sócia de uma holding financeira, onde lidera estratégias comerciais em asset management, wealth management e M&A.
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